SĂ©rgio Botelho â Ă impressionante a influĂȘncia que o pensamento e a mitologia grega exercem no mundo, atĂ© os dias de hoje. Muitas das figuras mitolĂłgicas, com origem helĂȘnica, viraram arquĂ©tipos que referem comportamentos identificados pelas ciĂȘncias humanas.
Um exemplo marcante disso vem da figura de Narciso, tĂŁo exageradamente apaixonado por si mesmo que, ao enxergar sua imagem na ĂĄgua, sob o olhar atento e desafiador da deusa Afrodite, mergulhou em contemplação irresistĂvel, para nĂŁo voltar mais.
DaĂ surgiu a figura do narcisista, devidamente catalogado pela psicologia, que trata do indivĂduo, sem distinção de gĂȘnero, que se acha simplesmente o mĂĄximo. Com essa convicção arraigada, despreza olimpicamente o outro, gerando todo tipo de embate.
O problema Ă© que, no convĂvio humano, seja na polĂtica, na vida familiar ou em qualquer contexto social, tal comportamento nĂŁo se limita a uma questĂŁo de vaidade. Ele se espraia e ganha novas formas, muitas vezes dolorosas para todos, jĂĄ que nĂŁo hĂĄ limite ao narcisista quando o objetivo Ă© se expor, de preferĂȘncia, expondo o outro.
O narcisismo acaba criando um terreno fĂ©rtil para julgamentos negativos baseados em estereĂłtipos. A dificuldade de reconhecer a alteridade leva Ă exclusĂŁo de grupos ou de pessoas vistas como diferentes. Um problema social gravĂssimo.
NĂŁo raramente, um indivĂduo narcisista, ao sentir-se ameaçado ou contrariado ou simplesmente desejoso de confrontaçÔes, pode recorrer Ă calĂșnia como forma de manter sua imagem intacta ou destruir a reputação de quem lhe esteja servindo de alvo.
Nesse sentido, muito facilmente, pode se valer da difamação, de informação desabonadora, ainda que sem qualquer fundamento, com o intuito de manchar a imagem alheia. Para o narcisista, rebaixar o outro pode ser apenas uma estratégia para manter uma falsa sensação de superioridade.
Em todos esses casos, o narcisismo aparece como raiz de uma fragilidade interna escondida por meio da arrogĂąncia. A necessidade de afirmação e de domĂnio que prejudicam os outros, tanto em nĂvel psicolĂłgico quanto jurĂdico. Quando nĂŁo, de esconder seus prĂłprios defeitos.
Esses conceitos todos vĂȘm, em Ășltima anĂĄlise, do pensamento e da mitologia grega. Ao criar o mito de Narciso, e de outros tantos, a exemplo de Ădipo, de Medusa, de SĂsifo, de Ăcaro, de Prometeu, entre vĂĄrios, os gregos identificaram personalidades humanas que nos acompanham atravĂ©s dos sĂ©culos.
NĂŁo me canso de revisitar a filosofia e a mitologia grega. O pensamento humano de ontem e de hoje, tem origem ali.

