PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Datas em conflito

Sérgio Botelho – Quando o assunto é a fundação da atual cidade de João Pessoa (que ficou sendo a da própria Paraíba) há registros cronológicos em conflito. A data consagrada institucionalmente é 5 de agosto, dia em que os conquistadores fizeram pazes com os Tabajaras.

Leva-se em conta que a união entre as tropas de ocupação e aquela nação indígena quebrou o poder de resistência dos Potiguaras. Assim, foi possível a conquista da Paraíba, inclusive sob as bênçãos de Nossa Senhora das Neves, já que 5 de agosto é o dia da santa.

Como parte do reconhecimento do 5 de agosto na condição de data de fundação da Paraíba, o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano deu sua contribuição. Em 18 de setembro de 1971, o IHGP adotou como sua a antiga bandeira do Estado da Paraíba, criada em 1907.

A dita bandeira tem inscrita em meio a listras verdes e brancas a data 5 de agosto de 1585, em clara referência à fundação da Paraíba. Enfim, em 1967 o governador João Agripino decretou o 5 de agosto como feriado estadual, celebrando a fundação da Paraíba.

O problema é que a cidade somente começou a ser efetivamente construída em 4 de novembro de 1585. Nesse dia, segundo o Sumário das Armadas, uma espécie de certidão de nascimento da Paraíba, os portugueses demarcaram o primeiro fortim da povoação.

“Nada havia antes disso que se assemelhasse a um aglomerado populacional, mínimo que fosse”, argumentam os defensores de 4 de novembro. Julgo que com alguma razão, até, mas a data oficialmente consagrada é mesmo 5 de agosto.

Estou abordando esse tema porque foi em 15 de outubro de 1585 que os portugueses, chefiados por Martim Leitão, partiram de Pernambuco dispostos a construir a nova cidade.

Na comitiva seguiam trabalhadores, militares, criados, gente a pé e a cavalo em número suficiente para a tarefa, concretamente iniciada em 4 de novembro.

Mais detalhes em

https://parahybaesuashistorias.blog/martim-pb/

Na foto, a bandeira de 1907

*Sérgio Botelho é jornalista, escritor, memorialista e membro do IHGP.

O Sumário das Armadas que se fizeram e guerras que se deram na conquista do Rio Parahyba

O trecho que o Parahyba e Suas Histórias reproduz, abaixo, é do “Sumário das Armadas que se fizeram e guerras que se deram na conquista do Rio Parahyba”. A obra relata acontecimentos ocorridos entre 1583 e 1587 e constitui nossa principal narrativa contemporânea da conquista.

A autoria da obra é controversa. Durante muito tempo foi atribuída a diferentes jesuítas, sobretudo a Simão Travassos ou Jerônimo Machado, e há tradições que a relacionam ao padre Cristóvão de Gouveia.

Independentemente da autoria exata, o autor demonstrava conhecimento direto dos acontecimentos, personagens, deslocamentos e decisões administrativas da conquista. Isso explica o elevado valor dado ao texto pela historiografia.

O Senado Federal publicou edição moderna sob o título História da Conquista da Paraíba, permitindo consultar gratuitamente o texto. A data de 15 de outubro consta diretamente dessa narrativa.

É uma vantagem documental enorme. Não estamos diante de uma data reconstruída três séculos depois, mas de informação derivada da principal fonte narrativa produzida muito próxima aos acontecimentos.

O trecho que se refere ao 15 de outubro de 1585 é o seguinte:

“Para se fortificarem estes povos com os índios, de que Deus, por indústria do ouvidor-geral Martim Leitão, nos tinha feito, pareceu necessário não se perder tempo, antes importava a toda fúria ir-se fazer um forte, e recuperar a artilharia e assentar a povoação, por se os franceses neste verão não virem fortificar, no que Francisco de Castejón deixara; para o que por todos foi assentado que ninguém podia fazer todas estas cousas, senão o ouvidor-geral Martim Leitão, ao qual o pediram e requereram todos; e ele aceitou, por serviço de Deus e d’el-rei, e por bem destas capitanias.

Assim se partiu para Paraíba, a 15 do mês de outubro do mesmo ano, com alguns amigos, e seus oficiais, e criados, que fariam número de 25 cavalo, e 40 de pé, levando pedreiros e carpinteiros, e todos o recado necessário para fazer forte, e o que mais cumprisse; e chegou lá aos 29, onde foi grandemente recebido dos índios e brancos, que aí estavam; e aos principais que vieram uma légua recebê-lo, abraçou um a um com grande festa; e fazendo apear os de sua casa, os fez ir a cavalo, e alguns, pelo que tinham passado com os brancos, tremiam de maneira, que era necessário i-los sustentando na sela.

Com este triunfo os levou por meio de suas aldeias bem vestidos, com o que lhes havia dado, com o que uns choravam e outros riam; coisa muito para ver! E logo em essa noite se informou dos sítios, e particularmente em segredo tinha encomendado lhe buscassem com todas as comodidades necessárias para povoação, a Manuel Fernandes, mestre das obras d’el-rei, Duarte Gomes, João Queixada, e outros, e o capitão, que todos estavam para isso dele prevenidos em segredo, mas encontrados nos pareceres dos sítios.

Ao outro dia o ouvidor-geral, ouvindo missa antes de sair o sol, que caminhando, e andando nestas jornadas, sempre lhes dissemos, foi logo ao pé ver alguns sítios, e à tarde a cavalo até o ribeirão de Jaguaripe, para o cabo Branco, e outras partes, com o que se recolheu à noite enfadado, encomendando isso na manhã que, vinha a Nossa Senhora devotamente, foi Deus servido à sua intercessão, como padroeira daquela nova planta, concluísse que assentasse naquela parte sobre o porto, onde agora está a cidade, planície de mais de meia légua, muito chão, de todas as partes cercado d’água, senhora do porto, que com um falcão se passa além. É ribeira d’água doce entre ela, e o porto, que é singular, e tão alcantilado, que da proa de 60 navios de tonéis se fala em terra, donde sai um poderoso torno d’água para provimento das embarcações, que a natureza ali pôs com maravilhosa arte, e muita pedra de cal, aonde logo mandou fazer um forno dela, e tirar pedra um pouco mais acima, mas perto; com que visto tudo muito bem, e buscando o mato daquele sítio, e tudo roçado e limpo, a 4 de novembro se marcou o forte, de 150 palmos de vão em quadra, com 2 guaritas, que jogam 8 peças grossas, uma a revés da outra e alicerces de pedra e cal, para cujo princípio se fez de ostra e pedra, com 2 juntas de bois, e com uma dúzia de vacas, que levou para inçar a terra, além de muitos porcos, cabras, e todas as criações, com que procurava afeiçoar os homens à terra. E certo que até as galinhas, que levavam para si e doentes, dos quais sua casa era a botica, repartiu por todos; e com os carros, e trabalharem mau e bons com seu exemplo, que um e um os chamava de madrugada, e apelidava à obra, e repartia uns na cal, outros no mato com os carpinteiros, outros nos pedreiros, e uns nos serradores, barro, e taipas, porque os alicerces e cunhais só eram de pedra e cal, e o mais de taipa de pita, de quatro palmos de largo; para o que mandou logo fazer oito taipais para todos trabalharem; e era para ver a porfia, e inveja em que os metia, cevando-os com sua afabilidade, e com trabalhar mais que todos, com o que duravam na obra de sol a sol, sem descansar mais que a hora de comer; em que o trabalho e continuação vieram a ser tantos, que todos desejavam adoecer, para ter repouso.

Chegando pois a obra, em duas semanas de serviço, a estado defensível, logo lhe mandou pôr a artilharia, que neste meio tempo, com espantoso trabalho, e indústria, por búzios, que para isso levou, se havia tirado do mar, sem se perder peça, que foi cousa milagrosa! Só as câmaras faltaram; com seis, que ajuntou em Pernambuco, e levava já com esse pretexto, com dous falcões, que foram por mar com os caravelões da matalotagem, se remediou o negócio; e depois por desastres só acharam lá mais duas câmaras.

Assim assentada a artilharia, e feito o possível, ordenou, por não se perder tempo, de que é muito imigo, e o nosso gentio não esfriar, como já começava, fosse João Tavares, e Pedro Lopes com toda a gente, dar uma boa guerra às fraldas de Capaoba; e assim ficando-lhe somente aí os seus moços, e oficiais da obra, e Cristóvão Luís, e Gregório Lopes d’Abreu, foram todos os mais, onde andavam 13 ou 14 dias unicamente, e se tornaram com apenas destruírem 4 ou 5 aldeias, cuja vinda tão apressada o ouvidor-geral sentiu muito, e logo determinou concluir o mais em breve que lhe fosse possível, pelo que em seu peito tinha determinado; a saber, a obra e torre, que fazia para o capitão, sobre a porta do forte com duas varandas, cousa nobre, e uma grande casa para armazém, sobradada, para gasalhado do almoxarife.

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